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Evolução dos Relatórios ESG no Brasil: Lições do “Reporting Matters 2025” para as empresas

  • 3 de mar.
  • 5 min de leitura
Foto preto e branco. Uma mão segurando um relatório repleto de gráficos

A nova edição de 2025 do estudo Reporting Matters Brasil acaba de ser publicada e traz um raio-x fascinante sobre a maturidade do relato corporativo no país. 


Não é de hoje que venho destacando em textos, discussões e análises a "onda de maturidade" da regulação ESG e de sustentabilidade corporativa. Os graves cenários econômicos, tecnológicos, geopolíticos e climáticos consolidam a urgência com a qual empresas e agentes econômicos precisam lidar com riscos e impactos nos negócios.


O recado é claro: estratégias ESG e de sustentabilidade são pilares para a sobrevivência em todos os setores. Lutar contra essa necessidade gera (e agrava) riscos sistêmicos nas atividades econômicas.


O "estado de coisas" dos Relatórios ESG no Brasil

Foi lançada hoje (03/03) a nova edição de 2025 do estudo Reporting Matters Brasil, que traz um raio-x fascinante sobre a maturidade do relato corporativo no país. 


Realizado pelo CEBDS Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) a partir da metodologia do WBCSD (World Business Council for Sustainable Development), com apoio técnico do Grupo Report, o estudo busca oferecer uma visão estruturada sobre como as empresas comunicam suas informações ESG no Brasil.


A Metodologia por trás dos dados

Para chegar a essas conclusões, a edição de 2025 analisou 82 relatórios corporativos. A avaliação se baseou em 16 critérios e 76 subcritérios, organizados em quatro grandes dimensões: Princípios, Conteúdo, Efetividade e ODS. 


  • Princípios: Os fundamentos de comunicação das estruturas de relato ESG.

  • Conteúdo: Como os temas materiais são de fato gerenciados e divulgados.

  • Efetividade: A capacidade do relatório de responder às necessidades dos seus públicos.

  • ODS: A integração com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.


Um grande diferencial deste ano foi o método híbrido: o processo combinou a leitura crítica de 11 consultores especializados (que dedicaram 350 horas à análise de quase 10 mil páginas) com o uso de Inteligência Artificial. A IA foi determinante para checar a completude dos relatórios, reduzir omissões e garantir uma consistência rigorosa nas pontuações finais.


O que mudou da 1ª edição de 2023 até a atual de 2025?

A análise comparativa das três edições do estudo (1ª de 2023, 2ª de 2024 e a 3ª de 2025) revela um amadurecimento acelerado do mercado brasileiro em termos de gerenciamento dos reports de ESG e sustentabilidade:


  • A nota média disparou: A média geral de desempenho dos relatórios saltou de 6,7 (em 2023) para 7,8 (em 2024) e alcançou a marca de 8,3 em 2025.

  • Dupla Materialidade virou regra: Em 2023, apenas 40% das empresas adotavam essa abordagem. O número subiu para 54% em 2024 e dominou o mercado na edição atual, com 75%.

  • A convergência de normas: A busca por alinhar sustentabilidade ao desempenho financeiro fez a integração simultânea dos frameworks GRI + SASB + TCFD dar um salto exponencial, indo de tímidos 4% em 2023 para 19% em 2024, alcançando 26% em 2025.

  • Menos relatórios sem auditoria: A parcela de publicações que não passaram por nenhuma verificação externa caiu progressivamente: era 26% em 2023, passou para 23% em 2024 e agora representa apenas 16% em 2025.

  • O "Choque de Realidade" no Clima: A meta mais rigorosa de "reduzir e neutralizar emissões residuais" sofreu uma forte correção. Em 2023, 46% das empresas declaravam esse compromisso. Esse número despencou para 15% em 2024 e ficou em 16% em 2025, refletindo a complexidade técnica de mensuração e uma cobrança maior do mercado por planos práticos em vez de promessas declaratórias.


O Horizonte da Dupla Materialidade e a Governança Corporativa

Esse avanço expressivo da dupla materialidade ESG (que avalia o impacto da empresa no mundo e o impacto financeiro do mundo na empresa) não é por acaso. Ele reflete uma forte aceleração regulatória, puxada pelas normas europeias (ESRS), pelos padrões IFRS S1 e S2, e pela determinação da CVM de adotar os padrões ISSB no Brasil até 2026.


Como reflexo direto dessa exigência financeira, a Governança Corporativa está mudando: há um avanço claro no (necessário) envolvimento do Conselho de Administração e na integração da sustentabilidade à remuneração variável (bônus) dos executivos, alinhando a estratégia de negócios aos resultados socioambientais. Pelo relatório, as empresas líderes hoje possuem comitês específicos de sustentabilidade e linhas de reporte muito bem definidas.

Em nível global, relatório publicado no fim de 2025 pela OECD - OCDE corroborou esse cenário: 66% das empresas pelo mundo (por capitalização de mercado) utilizam um comitê de nível de conselho supervisionando riscos de sustentabilidade ESG; 70% dos conselhos de administração estão supervisionando riscos em questões climáticas com comitês internos.


Cabe frisar um desafio complexo ainda vigente para as empresas: a integração entre materialidade de impacto e a materialidade financeira. Permanece a dura missão de integrar riscos, oportunidades e priorização estratégica nas companhias. 


Embora o amadurecimento dos processos internos, ainda é comum, segundo o relatório de 2025, a falta de explicitação dos critérios de priorização e a ausência de conexão estruturada com a gestão de riscos corporativos. Nos relatórios avançados, observou-se alinhamento entre a avaliação de materialidade e o Enterprise Risk Management (ERM), com integração entre tópicos financeiros e de impacto, trata-se de um tendência que crescerá nos próximos anos.


Os 15 Temas Materiais mais abordados pelo mercado

O estudo revelou quais são as prioridades estratégicas na matriz de materialidade das empresas brasileiras. Se a sua companhia atua nestas frentes, você está no caminho certo:


  1. Ética, integridade e compliance: Segue no topo das preocupações, presente em 78% dos relatórios;

  2. Responsabilidade sobre o produto : Foco na confiança, segurança e experiência do consumidor, presente em 78%;

  3. Mudanças climáticas: Cresceu para 77% e se consolidou como uma preocupação transversal urgente;

  4. Atração, retenção e desenvolvimento de colaboradores: Foco na valorização das pessoas, com 73%;

  5. Diversidade, equidade e inclusão: Um tema consolidado nas estratégias de capital humano, com 70%;

  6. Saúde, bem-estar e segurança no trabalho: Foco em condições de trabalho seguras, com 64%;

  7. Gestão de fornecedores e da cadeia de suprimentos: Refletindo a pressão pela responsabilidade compartilhada, com 64%;

  8. Inovação e tecnologias limpas: Pauta essencial para ecoeficiência e novos desenvolvimentos, com 62%;

  9. Engajamento com comunidades e desenvolvimento local: Apresentou um avanço notável na priorização das empresas, chegando a 61%;

  10. Direitos Humanos: Pilar fundamental da agenda social corporativa, com 60%.

  11. Gestão de resíduos e economia circular: Esforços em logística reversa e produção limpa, com 57%;

  12. Energia e transição energética: busca pela eficiência e fontes renováveis, com 53%;

  13. Gestão da água e recursos hídricos: Cuidado essencial com efluentes e escassez, com 51%;

  14. Biodiversidade e ecossistemas: Tema ambiental com importância sistêmica, presente em 42%; e

  15. Cibersegurança e proteção de dados: Um tema novo que ganhou força com a digitalização das operações, alcançando 39%.


Horizonte para os próximos anos

O mercado não priorizará mais narrativas promocionais, tampouco os reguladores e demais stakeholders estratégicos. A exigência agora é por dados verificáveis, governança robusta e sustentabilidade atrelada ao fluxo de caixa. Os relatórios corporativos em sustentabilidade se tornam, assim, ferramentas decisivas para o aprimoramento da governança corporativa, da gestão de riscos e da geração da valor seguro e resiliente nas empresas de diversos setores.


Vale destacar que esse amadurecimento tem data marcada. Com a determinação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a adoção dos padrões do ISSB (IFRS S1 e S2) será obrigatória. Os primeiros relatórios compulsórios sairão já em 2027 (ano-base 2026). A janela de adaptação está se fechando; o momento de estruturar controles internos e dupla materialidade é agora.


E a sua empresa, já trata a sustentabilidade como a infraestrutura do futuro e um mecanismo estratégico da governança corporativa?


*Acesse a íntegra do relatório recém-lançado aqui: https://cebds.org/reporting-matters-2025/



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Artigo originalmente postado no LinkedIn

Auto: Bruno Teixeira Peixoto.

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